04 outubro 2015

Boas Maneiras, as Relações Humanas e a Lava a Jato

Todo mundo é craque em ver os defeitos dos outros. Mas é mais difícil ver os próprios defeitos. Só que superá-los é a única forma de realmente crescer, de ser mais. 

Ora, existem muitas maneiras de se saber em que melhorar. Podemos ler este livro A Confissão 4a. Edição: Tudo que Você Precisa Saber para Fazer uma Boa Confissão (Portuguese Edition) que é um micro compêndio da sabedoria católica sobre em que pontos melhorar, por exemplo. 

Ou podemos ter a sorte de ter um bom confessor ou um bom amigo com quem possamos conversar sobre os nossos problemas sem receio porque são pessoas que nos querem bem e porque tem uma boa formação e não nos dirão coisas por inveja ou superficialidade. Tudo isto certamente nos levará muito longe. Graças a Deus. 

Mas existe uma forma comum, recorrente, na vida diária mesmo, que poderia ser uma ótima forma de avançarmos no que é bonito, bom, divino, etc. E isso seria através das nossas habituais relações humanas. As relações cotidianas, se vividas com boas maneiras, com elegância e bom gosto podem se tornar uma ótima e recorrente fonte de crescimento humano. Nestas, mesmo nas fugazes, se regadas desses lampejos da luz divina que são a bondade, o bom gosto e tudo que é nobre, certamente se transformariam em ocasião de aprendizado e até mesmo de felicidade. Quem nunca se admirou com uma pessoa agradável, culta, engraçada ou de grande valor moral e não quis ser como ela? Mas as relações humanas podem também ser fonte de deformação humana se naturalizarmos ou banalizarmos o erro.

O Garoto de Fezes 


Esperando na porta de um colégio, vi, ouvi e assisti a omissão de um muito amoroso pai que ouvia com atenção, mas que não exigia do seu filho pequeno respeito aos demais e bom gosto. Seu amado filho contava em voz alta tudo sobre um coleguinha que desarranjou-se. Contou tudo em detalhes, em público, em voz alta, acentuando os detalhes para causar sensação, depreciar o colega, ser o centro das atenções.

Terminada a entusiasmada e prolongada descrição do ocorrido e para continuar a ganhar a atenção que recebia do amoroso pai que sorria embevecido com a descrição das fezes que saiam da boca do seu filho, (!) passou a descrever as características das próprias necessidades e como em muito se distinguiam do infeliz colega. Estendeu o assunto até sumir da minha vista deixando um rastro de imagens desagradáveis de sua vívida, detalhada e entusiasta descrição que atirava o colega que passou mal em vergonha e a todos nós na sua lama de nojentezas.

Hoje estamos naturalizando de uma maneira ruim assuntos que eram tabus antigamente. Continuam sendo assuntos desagradáveis e incompatíveis com uma boa conversa, dessas que nos elevam, como devem ser nossas relações sociais, essas que falávamos acima.

Uma coisa é não falar de um assunto até ele virar uma doença ou uma psicopatia, outra coisa bem diferente é naturalizar as nojentezas e vulgaridades a ponto de nos fazer conviver com isso como se fossem assuntos de conversas sociais. Isto é no mínimo falta de bom senso. 

Esse pai tinha que ter ensinado ao filho a respeitar o colega que passou mal, a não falar em público sobre nojentezas e não, como vez, prosseguir a conversa com o filho perguntando-lhe interessadíssimo, sobre as fezes do próprio filho.  O garoto passou então a falar com entusiasmo da sua prisão de ventre pela qual - vejam aqui como se distorce o caráter de quem não é corretamente educado - quis se projetar,  face à diarréia do colega, uma superioridade qualquer. Coisas do orgulho que todos temos e que precisamos corrigir. 

Um pipoqueiro vendia sua pipoca à saída do colégio. Acho que ninguém poderia comprar essa pipoca com o que se ventilou naquele dia. Devíamos nos lembrar sempre que se no princípio era o Verbo e tudo foi criado, como filhos de Deus, nós também criamos, de alguma maneira, a realidade à nossa volta com o que falamos. 

Dê exemplo e corrija seu filho para que ele procure falar de assuntos nobres, para que respeite os desafortunados de qualquer tipo e lhes transmita a confiança do seu amor para que não queiram tê-lo corrompendo-se ao tentar angariá-lo em qualquer lugar, com qualquer assunto, a qualquer preço.

Nós, os seres humanos, não somos apenas intestinos ou hormônios para que nossas preocupações sejam apenas de natureza "material". É preciso elevar os interesses dos filhos para o que vai além do imediato, é preciso buscar o divino para ser humanamente elevado. Somos pessoas e precisamos de uma boa educação humana, o mais nos será dado por acréscimo.

Acho que até aqui já se viu como certos assuntos, mesmo descritos com parcimonia são absolutamente inúteis e desagradáveis. Mas naquele dia ainda houve mais.

No Restaurante


No mesmo dia, mais tarde, num restaurante próximo à área turística da minha cidade, numa mesa grande conversavam animadamente doze pessoas. Essa mesa já me havia chamado atenção quando cheguei porque não havia ninguém sentado como habitualmente. Todos estavam esparramados em suas cadeiras: sentados praticamente nas costas, de lado, com os pés em outras cadeiras e apesar de estarem todos em volta da mesa só a comida estava realmente à mesa. Como toda mesa de brasileiros em festa o tom da conversa era muito alto, muito alto mesmo. E então somos  obrigados a ouvir o que estão dizendo quer queiramos quer não. ( Na verdade não se pode ouvir bem nem o que nós mesmos estamos pensando!).

E o assunto, na referida mesa, era a fermentação intestinal. A alegria, a vontade de ser engraçado, o desejo de participar, o desejo de dar apartes "memoráveis" e "definitivos" contribuiu para a "riqueza" do referido assunto: da batata doce até os mais vívidos detalhes dos efeitos da fermentação intestinal foram impingidos a todos do restaurante. Qualquer pessoa passando na rua a caminho do ponto turístico também se aspergia do assunto.

É típico desse tipo de mesa, onde prevalece a descontração extrema, a bebida farta e o conhecimento limitado sobre qualquer outro assunto menos "material", intestino mesmo,  típico de um país que não lê, encontrarmos a prática da maior de todas as FALTAS DE BOAS MANEIRAS QUE é não ouvir. As pessoas sem educação não ouvem, ou seja, não falam sobre o que foi dito, mas sobre o que querem falar e por isso essas conversas são assim uma sequência de apartes em que cada um busca causar o maior escândalo possível para obter o seu quinhão de projeção no grupo. Não há encontro entre pessoas, não há troca de informação, as pessoas não se fazem companhia, não se elevam, nem mesmo podem rir, apenas reagir ao escândalo de uma grosseria. De modo mecânico os egos paralelos buscam-se a si mesmos. A descrição dos eventos da fermentação intestinal virou um teatro grotesco e muito triste porque a cada histeria de uma grosseria lembrada se alternava um silêncio solitário que Picasso certamente pintaria pelos dedos que não largaram um instante sequer os celulares (seriam espelhos?) enquanto falavam.

As relações humanas poderiam nos ensinar muitas coisas em que nos elevarmos, mas não com estes temas. Do que você fala? Uma pessoa de boas maneiras escolhe o que fala, prefere temas nobres e porta-se como um filho de Deus. Nós podemos atrasar o país muito mais que os corruptos da Lava Jato se consentirmos cotidianamente em baixar o nível de nossas relações humanos ao naturalizar a vulgaridade e ao não almejarmos o que é nobre, o que é bom. Aí nem lavando à jato essas conversas dariam em algo produtivo. 

"Boa parte da nossa vida está composta de pequenos encontros com pessoas que vemos no elevador, na fila do ônibus, na sala de espera do médico, no meio do trânsito da cidade grande ou na única farmácia da cidadezinha onde vivemos... e ainda que sejam momentos esporádicos e fugazes, são muitos por dia e incontáveis ao longo de uma vida. Para um cristão, são importantes, porque são ocasiões que Deus lhe dá para rezar por essas pessoas e mostrar-lhes o seu apreço, tal como deve suceder entre os que são filhos de um mesmo Pai. Fazemos isso normalmente através desses pormenores de educação e de cortesia que temos habitualmente com qualquer pessoa, e que se transformam facilmente em veículos da virtude sobrenatural da caridade." Fernández-Carvajal, Coleção Falar com Deus" volume 3,Tempo Comum(1) Semanas I a XII, pag. 33. "