29 maio 2015

Obedecer é Prova de Boas Maneiras? Mas Quando e Por quê?

A obediência é uma virtude humana. É a atitude responsável de colaboração e de participação, necessária a um bom relacionamento, ao convívio da vida em sociedade e ao trabalho produtivo.

Negar-se a si mesmo e submeter-se à vontade ou  à ordem de outra pessoa é obediência. E nos custa. Mas só é virtude quando a obediência é feita de forma voluntária, para aderir a um bem. Ou seja, a pessoa que adere por coerção ou passividade conveniente não chega a desenvolver as virtudes humanas relacionadas à obediência. Para a obediência ser virtude que dê frutos é preciso executar a tarefa que nos é solicitada com excelência e sem fugir dos sacrifícios que lhe estão embutidos. É para isto a obediência, para nos desenvolver para além do que nos custa.

Podemos não ter perfeito domínio ou conhecimento de tudo sob aquilo que estamos aderindo por obediência, mas o fazemos por confiança à chefia, ao Magistério da Igreja, ao bom senso, à lei, aos costumes, e estaremos cooperando com o bem pela virtude da obediência. Por isso é um mal muito grande quando  os líderes, que deveriam dar exemplo, traem aqueles que aderiram por obediência hierárquica ao que eles pedem, causando-lhes escândalo. É pela confiança que em muitas situações obedecemos e por isso é um grande mal o pecado do escândalo, seja dos pais ou dos líderes em geral.


Ou seja, podemos muitas vezes obedecer  por completa concordância com o proposto, ou  podemos obedecer por confiança em quem nos indica o que fazer, ou ainda podemos obedecer por dever de caridade como atender a vontade da mãe, de um idoso. Isto tudo é obediência, mas ela sempre pressupõe a adesão voluntária, mesmo que a contra-gosto pelos esforços devidos! 
É importante esclarecer que a obediência é assim uma ação pró-ativa e não uma anulação. Obedecer é aderir ao bem. As vezes custa porque é mais fácil ficar na cama indefinidamente, adiar fazer os deveres ou lavar a louça, etc. Mas obedecer como virtude jamais é passividade estúpida, nem comodismo, nem fazer o mais fácil, nem é substituir a ação devida por adulações. É antes de tudo cooperar, juntar-se à.


Nós vivemos em uma época em que rejeita todas as formas de autoridade e as regras ou normas que todos devem respeitar. A arrogância e o egoísmo nos faz sentir auto-suficientes e sob o pretexto de defender a nossa liberdade nos negamos a obedecer, a aderir, a cooperar.


Obedecer além de ser uma forma de cooperar de imediato com uma tarefa, disposição, clima, esforço, nos treina em segurar o nosso orgulho, arrogância, a nossa vontade de nos projetar que nos faz tantas vezes insistir em ter as coisas do nosso modo senão nos melindramos e tantas outras formas de falsa independência. Quando obedecemos também ampliamos no nosso horizonte e as nossas experiências porque ver o mundo através de outros olhos também nos enriquece. Assim obedecer é também ampliar horizontes. A obediência também traz frutos de longo prazo porque nos treina em vários comportamentos bons. 

Existe a obediência que é uma anulação. Mas ela não é virtude. E é uma anulação porque é acima de tudo uma "bronca", uma resistência ao bem que está por detrás da adesão por obediência, uma resistência a cooperação. 


Na verdade a obediência como virtude pressupõe mais  do que o simples executar mecânico de uma tarefa que nos foi ordenada, mas inclui também o realizá-la com toda a qualidade humana que temos, pressupõe acrescentar do que temos no coração para realizá-la ainda melhor do que nos foi solicitada, pressupõe também ter compromisso com o resultado final. E só assim ela não é submissão de anulação.


É maturidade pessoal  e sinal de categoria humana compreender que o mundo não gira em torno dos nossos caprichos e, portanto, não temos que viver julgando e aprovando tudo e todos para aí concedermos ou não a nossa cooperação, a nossa adesão. Em alguns casos e circunstâncias das pessoas em posição de autoridade pode aplicar para atos contrários à dignidade das pessoas e dos princípios de não-morais, como a mentira, calúnia, roubar ... em casos destes e de outros, não somos obrigados a obedecer porque nós nos tornamos cúmplices de crimes, de que não seríamos afetados.


Como obedecemos na vida cotidiana? Procuramos maneiras de simplificar e "chutar" a forma como devemos executar nossas tarefas? Adiamos muito? Enrolamos muito com desculpas, adiamentos, cafezinhos a toda hora, compensações, desvios das tarefas que deveríamos estar executando agora por tarefas mais agradáveis como estar a ler e-mails na Internet em vez de estudar ou lavar a louça? Como ficamos na fila? Reclamando? Incitando os outros com queixas inúteis que não melhoram o serviço e apenas refletem minha fraqueza em viver situações cotidianas sem reclamar? Pago minhas contas em dia? Cumpro as leis de trânsito? Sou coerente com as conseqüências dos meus valores ou mudo de opinão e relativizo a conseqüência grave de uma opção com desculpas? Cedo facilmente aos vícios, à greguiça, ao ócio, às queixas? 

Pontos Práticos sobre a Virtude da Obediência

  1. Jamais abusar da própria posição de liderança ou comando. Nem oprimir filhos por voluntarismos autoritários, nem abusar dos secretários e empregados, não omitir-se de suas funções de comando e liderança por comodismo ou vaidades que levam certos líderes a cultivar mais suas vaidades do que seus deveres de liderança.
  2. Obedecemos não apenas os determinantes da lei, mas o bom senso, os bons costumes, os deveres de caridade para com os esposos, filhos, e pessoas vulneráveis como pessoas muito menos instruídas ou experientes, deficientes físicos, mendigos, crianças, idosos, jamais explorando-os por ordens abusivas ou por desconsiderar-lhes as "vontades" que implicam os atender por caridade. 
  3. A obediência não pode estar condicionada à sua aprovação pela pessoa em comando ou pelo gosto que você tenha ou não na execução da tarefa. 
  4. A obediência como virtude pressupõe o concentrar-se em executar da melhor maneira possível sua tarefa, de preferência acrescentando-lhe mais do que o que lhe foi pedido.
  5. Categoria humana em obedecer é  realizar suas obrigações sem condicioná-las ao seu gostar ou não delas.
  6. É preciso obedecer nas pequenas coisas cotidianas onde não podemos ser medíocres. Obrigações como tomar banho, ser educado, trabalhar bem, estudar, sorrir, etc., nos treinam para melhor e só assim poderemos realizar grande tarefas. 
  7. Não reclame sobre suas ordens. Se for necessário esclarecer alguma coisa fale,mas não resmungue, não espalhe mau humor. 
  8. A obediência nos faz simples e generosos porque nos ajuda a nos concentramos na tarefa e não em criticar as pessoas.
A obediência é uma atitude responsável de colaboração e participação necessária aos bons relacionamentos ao trabalho produtivo e ao desenvolvimento de virtudes pessoais.

A propósito


(São Mateus 25,21)

O senhor lhe disse: ‘Parabéns, servo bom e fiel! Como te mostraste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da alegria do teu senhor! 

Caminho > Exame de consciência > Ponto 243
243"Qui fidelis est in minimo et in majori fidelis est": quem é fiel no pouco, também o é no muito. - São palavras de São Lucas, que te indicam - faz exame - a raiz dos teus descaminhos.

(São Mateus 5,40)
Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!


(Salmos 25,3)
Não fiquem desiludidos os que em ti esperam; fique confuso quem é infiel por um nada.

"Boa parte da nossa vida está composta de pequenos encontros com pessoas que vemos no elevador, na fila do ônibus, na sala de espera do médico, no meio do trânsito da cidade grande ou na única farmácia da cidadezinha onde vivemos... e ainda que sejam momentos esporádicos e fugazes, são muitos por dia e incontáveis ao longo de uma vida. Para um cristão, são importantes, porque são ocasiões que Deus lhe dá para rezar por essas pessoas e mostrar-lhes o seu apreço, tal como deve suceder entre os que são filhos de um mesmo Pai. Fazemos isso normalmente através desses pormenores de educação e de cortesia que temos habitualmente com qualquer pessoa, e que se transformam facilmente em veículos da virtude sobrenatural da caridade." Fernández-Carvajal, Coleção Falar com Deus" volume 3,Tempo Comum(1) Semanas I a XII, pag. 33. "