27 julho 2017

Boas Maneiras e Autocontrole: Você Sabe se Controlar?

Toda pessoa de boas maneiras sabe se controlar. Mas talvez o que seja necessário para adquirir auto controle seja mortificar-se. Mortificar não quer dizer colocar cilício para se sofrer porque se é sádico.Mortificar quer dizer treinar-se para controlar UM DEFEITO, UM DESCONTROLE. Uma pessoa que deixa de fumar um cigarro está mortificando esse vício, mas vai adquirir mais controle, mais domínio sobre si mesmo.

Assim para ter domínio pessoal, não sair por aí reclamando pelas mínimas coisas, é preciso mortificar-se.

Mortifica-se um defeito


Mortifica-se um defeito, uma tendência negativa para aumentar o controle sobre o que nos quer controlar. Ou seja, mortificar quer dizer combater, vencer uma tendência negativa ou que mesmo não sendo negativa está querendo ir além de sua função.

Portanto a mortificação está relacionada ou a refrear algo negativo ou a impedir que o secundário determine o principal. Ou seja, não há mal em comer, mas se se vive para comer aí é preciso mortificar a gula porque o ser humano não é seu órgão.

Mortificar-se de um cigarro é mortificar o vício. É querer deixar de fumar. E não é sabedoria pensar que se pode ficar no meio termo quando se trata de vícios porque exatamente o que caracteriza o vício é ser viciante! Ou seja, os relativistas fazem parecer que às nossas fraquezas é possível "ficar no meio termo", para "não ser extremado" mas na verdade o vício nunca pára, é sempre progressivo e debilitante. E do mesmo modo quando crescemos numa virtude ficamos mais forte em outras tantas.Ao vício e às más tendências é preciso combater sempre ou andamos para trás com eles.


Ou seja, o que é preciso mortificar não é relativo. Não se pode ficar satisfeito em fumar meia cartela de cigarros, desde que não se fume a caixa toda porque sempre iremos querer mais, ou poder menos. O cigarro sempre faz mal à saúde e não se consegue ficar em meia carteira, o vício sempre progride.

É, na verdade, uma dissimulação, uma desculpa da nossa fraqueza chamar de "fanatismo" com o intuito de relativizar a necessidade de mortificar-se, de combater uma tendência negativa. É sempre necessário adquirir a virtude oposta ao vício que está querendo nos dominar.

A outra falácia ( mentira com aparência de verdade) dos relativistas é a de que a mortificação tira o prazer do que existe em nome de alguma forma de fanatismo qualquer. Em geral a pessoa mortificada sente muito mais prazer quando o tem do que quem está sempre sendo empurrado por chopps, presentes, chocolates, etc até para acordar, para fazer o que deve. Quem nunca viu uma criança mimada desvalorizar os presentes da vida e uma criança normal como fica contente com uma atenção ou presente?

Na vida cotidiana mortificação tem a ver com procurar fazer o dever sem desculpas e adiamentos. Essas desculpas imaginosas para não mortificar-se nos leva a concluir que é preciso mortificar também as nossas potências psicológicas. Nos dias de hoje há necessidade de mortificar muitas coisas que levam a falsos sofrimentos e que são gerados por uma cultura de superficialidades e consumismos.

É preciso mortificar essa ansiedade de procurar ou "diagnosticar"  "infelicidades" ao se comparar com situações imaginadas ou fabricadas pelo ideal projetado pela cultura de consumo, por exemplo. É preciso também mortificar a fantasia que nos leva a comparações inúteis com a vida dos outros, com circunstâncias que não são reais. Uma pessoa mortificada dá valor à realidade como ela é e evita viver envolta em falsas frustrações.

É preciso mortificar a vaidade e tantas outras facetas do egoísmo porque mortificamos a "carne" quando evitamos excessos de fumo ou bebida, mas mortificamos também as potências internas fonte de muitos falsos sofrimentos modernos quando mortificamos a imaginação fantasiosa, as raivas exageradas, as falsas necessidades e as excessivas "sensibilidades" ( ser sensível como virtude é perceber o que é referente aos outros. Perceber demais o quanto não foi atendido, servido, olhado, amado é estar voltado demais para si mesmo e não é sensibilidade é egoísmo).

Hoje o consumismo leva milhares de pessoas a "sofrerem" por não terem isto ou aquilo. É preciso amar a vida, aos seus e a si mesmo como se é sem cair nessas comparações que levam a frustrações mais ou menos desejadas para se ficar afirmando o próprio eu nem que seja por meio de "infelicidades".

Mortificar-se na vida cotidiana é lutar para não se queixar quando até se tem motivo para isso para não ser pesado aos demais, por exemplo. É também evitar a companhia da funcionária sexy ou os ambientes em que mais facilmente se pode ser tentado à uma traição conjugal. Outra boa mortificação é parar uns segundos para refletir: “estou fazendo o que devo?”.

Que o nosso “Sim” seja completo, sem “nãos” embutidos. E para isso nos ajuda a mortificação. Dizia São Josemaría Escrivá - “Escreveste-me: “No fundo, é sempre a mesma coisa: muita falta de generosidade. Que pena e que vergonha descobrir o caminho e permitir que umas nuvenzinhas de pó - inevitáveis - turvem o final!”. Não te zangues se te digo que és tu o único culpado: arremete valentemente contra ti mesmo. Tens meios mais do que suficientes.”

Pontos Práticos de Mortificação na Vida Cotidiana

  1. Não acreditar que não precisa de mortificação para evitar excessos. 
  2. Não serve qualquer mortificação, algumas já viraram o oposto do que deveriam ser. É o caso    do costume de comer peixe na Sexta-feira Santa quando comemos bacalhoadas fantásticas regadas com muito vinho e guloseimas quando estávamos supostos a ser modestos. Ou fazer alguma mortificação que nos é fácil como fazer um pouco mais de esforço na ginástica se já somos atletas ou na verdade queremos emagrecer, etc. A mortificação que importa é aquela que combate o nosso defeito dominante. 
  3. Não esquecer que a mortificação pode ser externa ou interna: deixar de comer mais um pãozinho, ou ir para casa mais cedo ajudar a esposa a cuidar dos filhos combatendo esse comodismo tão comum entre os homens que os leva a viver num mar - muito aprisionante e que gera muitos falsos sofrimentos - de omissões por conveniência. O egoísmo é sempre uma prisão, mas por meras conveniências, para se evitar esses pequenos trabalhos cotidianos (e que portanto se repetem muito a miúde e se não nos mortificamos repetimos na mesma freqüência esse comodismo que os quer evitar) é altamente mediocrizante. 
  4. Praticar voluntariamente pequenas mortificações cotidianas que vão contra nossos vícios ou nossas tendências negativas: acordar na hora marcada todos os dias, fazer ginástica, ler o livro se somos preguiçosos, sorrir mais frequentemente, não se queixar, atender com mais afabilidade, etc. Pequenas mortificações diárias sobre nossas fraquezas vão nos tornar mais fortes ao nos fazer praticar as virtudes que lhes são opostas. 
  5. Prestar mais atenção nas pessoas, como Nossa Senhora nas bodas de Canná para perceber necessidades dos demais. Evitar falar de si em qualquer das suas formas: seus feitos, suas idéias, seus problemas, suas piadas, seus interesses, etc. 
  6. Ter demonstrações de carinho, lembrar dos aniversários, dizer uma palavra simpática, ligar para os amigos, visitar os doentes, fazer o bem a alguém, perdoar, esquecer ressentimentos, etc. Isto pode ser uma ótima mortificação dessa preguiça moral de envolver-se, de servir tão aprofundada numa época em que as conveniências pessoais tem, para muitos, sabor de "essência da vida".
  7. Limar as arestas do caráter: o modo de ser irritadiço, avoado, desagradável. 
  8. Ouvir o esposo, esposa, os filhos com mais atenção, sem essas barreiras de esteriótipos, sem ligeirezas. 
  9. Progredir um pouco mais em qualquer aspecto da vida: seja em educação, estudos, viagens, finanças, no desenvolvimento de um hobby de modo mais profundo que desenvolva nossos talentos, etc. A idéia aqui é mortificar a inércia, o desânimo da rotina, a descrença do pessimismo. 
A vida mortificada não é uma vida chata nem masoquista ou esquisita. É uma vida sem mentiras e rumo a um crescimento pessoal muito além do que poderíamos esperar.



 Leia mais sobre este tema com o livro da Editora Quadrante


Título: Por que mortificar-se?

Autor: Luiz Fernando Cintra

Páginas: 96

Descrição: Quem vence o horror moderno pelo sacrifício e aprende a vencer-se em união com o Senhor, descobre que essa pequena morte diária para si mesmo está muito longe de trazer tristeza e sofrimento.
"Boa parte da nossa vida está composta de pequenos encontros com pessoas que vemos no elevador, na fila do ônibus, na sala de espera do médico, no meio do trânsito da cidade grande ou na única farmácia da cidadezinha onde vivemos... e ainda que sejam momentos esporádicos e fugazes, são muitos por dia e incontáveis ao longo de uma vida. Para um cristão, são importantes, porque são ocasiões que Deus lhe dá para rezar por essas pessoas e mostrar-lhes o seu apreço, tal como deve suceder entre os que são filhos de um mesmo Pai. Fazemos isso normalmente através desses pormenores de educação e de cortesia que temos habitualmente com qualquer pessoa, e que se transformam facilmente em veículos da virtude sobrenatural da caridade." Fernández-Carvajal, Coleção Falar com Deus" volume 3,Tempo Comum(1) Semanas I a XII, pag. 33. "