04 novembro 2014

Boas Maneiras: Inauguração Livraria ou Boas Maneiras no Coração

Acabamos de chegar da inauguração da nova Livraria Lumen Christi, a livraria do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, na Rua Dom Gerardo no centro. Na verdade é a inauguração do seu novo espaço porque a livraria Lumen Christi já existia noutro ponto dentro do Mosteiro de São Bento.

Tudo muito lindo e perfeito na inauguração da nova loja: espaço amplo, bem iluminado, excelentes livros, muitas autoridades e algumas celebridades, discursos e coquetel perfeito. Velhos amigos e muitos, muitos, amigos novos.

E aqui chegamos ao ponto de o que que esta inauguração tem a ver com o Vida em Sociedade, Boas Maneiras, Virtudes Humanas e Cristianismo para a Vida Cotidiana. Bom, claro que os livros sobre as virtudes, a ascética cristã. Alguns delirantes, como o Compendio de Teologia de Tanquerey, e, claro, tudo sobre a Ordem Beneditina, quase tudo de Bento XVI e a coleção completa da Quadrante. E isto foi um pouco do que deu para perceber das prateleiras tal a multidão que lotava a livraria.

Mas quando vamos ao Mosteiro de São Bento sempre voltamos como que enebriados por essa doce recepção beneditina. Se há uma coisa que é sintomática do cristianismo é esse acolhimento católico, universal, que se sente nos ambientes verdadeiramente elevados pelo amor de Cristo.

Mas os beneditinos se excedem nessa doçura em receber. É impressionante. É muito, muito sutil. É uma acolhida repleta de uma doçura onipresente, singela e, confessamos, invejável. 

Já estivemos em muitos outros eventos do Mosteiro de São Bento e é sempre essa mesma sensação de se ser acolhido como se fôssemos membros daquela família, longamente conhecidos, queridos, anelados, mesmo que recém-chegados. 

E ao mesmo tempo tudo é tão natural e simples! Ou será que é porque tudo é tão natural e simples, regado por essa discretíssima humildade, longamente elaborada pela oração, que somos tão bem recebidos, acolhidos?

Por oposição nos lembramos agora dessas festas infantis, cheias de enfeites, brindes e decorações luxuosas, mas onde, não raro, os pais se comportam como quem levou o filho a um evento público, pelo qual "pagou" por levar o presente e acaba agindo com indiferença e desinteresse, não raro simplesmente descartando o filho na festa para que se "entupa" de prazeres externos... Os adultos não se envolvem nem ensinam os filhos a se envolverem com a alegria do aniversariante. Ou esses casamentos e reuniões onde a competição, a vontade de parecer "magra", rico, forte, poderoso, etc. é o único "ânimo" a mover a festa. Que diferença!

Como pessoa de comunicação nunca me canso de perguntar toda vez que vou lá: como eles conseguem ser tão doces ao receber? Se uma pessoa quiser ser um bom anfitrião deve procurar imitá-los, conhecer a Regra de São Bento. O acolhimento deles é sincero, a atenção que nos dão é verdadeira. Muito rapidamente, mesmo numa primeira conversa com eles, você se sentirá há muito "um velho conhecido". Suas conversas não tem aquela predisposição feita de receios, malícias, segundas intenções, nem a desconfiança e o jeito "armado" ou precavido das conversas do mundo laico. Que bom é estar no Mosteiro de São Bento!

Para se ter uma ideia vejam o que fez Dom.... A nossa amiga, que nos convidou para a inauguração da livraria, chegou muito atrasada nesse dia. Na verdade chegou três horas depois do início da festa.

Durante todo o tempo em que conversávamos se ela ainda viria ou não, Dom ..nos dizia que ainda estava em tempo dela chegar. E quando passadas três horas do início da festa, ela realmente  parecia que não viria mais, Dom lembrou-se prontamente de mil impedimentos plausíveis que, se a desculpavam de seu atraso, a nós  ao mesmo tempo nos animava a acreditar no melhor.

A coitada da nossa amiga enquanto isso corria e fazia de tudo para livrar-se do dentista e do trânsito. Que mal teríamos feito se pensássemos mal dela e do seu atraso, tanto esforço ela fazia para chegar!

Mas ninguém pode pensar mal de alguém enquanto conversa com um monge beneditino! É impossível! Eles agem, na conversa, como anjos da guarda a nos defender dos maus pensamentos, dos cansaços, das preocupações, dos pesares inúteis e vaidosos e que tantas vezes nos levam à falta de generosidade quando não à crítica gratuita ou à maledicência.

Ah! Como seria bom ser assim na nossa vida em sociedade! Esta é a verdadeira educação! E esta educação não pode ser reduzida à "uma questão de regras de etiqueta". A verdadeira educação é feita de valor real, feita de oração diária, de opção por uma fé que molda as relações sociais do homem pelo amor. E não por comportamentos baseados ora na conveniência comercial, ora nos humores, ora nos "determinismos" dos hormônios. Para não falar dos que estão sempre tão dependentes das consolações, para só aí, só nesses casos, reagir com cortesia. 

Quando nossa amiga finalmente chegou Dom... prontamente acolheu-a com alegria e disse: " - Já tenho aqui novos amigos" se referindo a nós. Pensem bem, se nós estivéssemos nos sentido negligenciados  porque quem nos convidou nos tinha deixados ali sem conhecer ninguém e se a nossa amiga estivesse preocupada com isso, ela chegaria tensa, cheia de desculpas, cansada pela correria.

Mas por esta frase de Dom ..., ela foi acolhida com simpatia e alegria e ao mesmo tempo em que era sutilmente tranquilizada nós éramos acolhidos. Nós éramos elevados a amigos e chamados a alegria da sua chegada.

Ao invés de uma conversa sobre desculpas e preocupações todos fomos levados a saudar sua chegada ao mesmo tempo que nos sentíamos já incluídos. Se seguiram risos e alegria e ficamos todos mais contentes.

E numa frase só. Beira a genialidade. Ou será a santidade? E é tudo feito de tal maneira que um mais desavisado não nota. E não foi só esta frase. A conversa deles é sempre assim, toda entretecida da luz de Cristo. Como deveria ser a nossa. Donde se conclui que, "no frigir dos ovos" da vida cotidiana, importa mais a santidade que o gênio.

Bem, isto é um pouco do que vimos e conseguimos colocar em palavras. Mas da capacidade de acolhimento beneditino há ainda muito mais para se aprender: há um ser em cada frase que é um consolo, uma alegria, um ânimo. E isto é preciso colocar na vida em sociedade. E é por isso que São Josemaría Escrivá, o santo da vida cotidiana, nos anima sempre a buscar "um algo santo na vida cotidiana que nos cabe descobrir". E isso é ser católico, universal. Dizem que Bento XVI é assim em sumo grau. Como eu gostaria de conhecê-lo!

Viva o Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro!


"Boa parte da nossa vida está composta de pequenos encontros com pessoas que vemos no elevador, na fila do ônibus, na sala de espera do médico, no meio do trânsito da cidade grande ou na única farmácia da cidadezinha onde vivemos... e ainda que sejam momentos esporádicos e fugazes, são muitos por dia e incontáveis ao longo de uma vida. Para um cristão, são importantes, porque são ocasiões que Deus lhe dá para rezar por essas pessoas e mostrar-lhes o seu apreço, tal como deve suceder entre os que são filhos de um mesmo Pai. Fazemos isso normalmente através desses pormenores de educação e de cortesia que temos habitualmente com qualquer pessoa, e que se transformam facilmente em veículos da virtude sobrenatural da caridade." Fernández-Carvajal, Coleção Falar com Deus" volume 3,Tempo Comum(1) Semanas I a XII, pag. 33. "