Boas Maneiras e os Sentimentos

"São Josemaria insistia em que precisamos ver — em todos — irmãos a quem devemos um amor sincero e um serviço desinteressado."( Javier Echevarria).

Não se pode ser educado sem ter e demonstrar bons sentimentos nos relacionamentos cotidianos. É preciso desenvolver a generosidade e a caridade pessoal necessárias para olhar os outros sempre com bons olhos.

Sentimentos de arrogância e presunção por exemplo, são muito fáceis de se passar, nas nossas justificativas, por qualquer outra coisa e só conseguimos nos enganar sobre quem nos realmente somos. Por isso é necessário alguma autocrítica.

Mas a verdade é que tiramos do nosso coração a maneira como vemos os outros. Se nos elitizamos em relação aos demais, se somos ríspidos ou maledicentes, é porque não temos bons sentimentos. Um bom exame de consciência e uma boa confissão ajudam muito a colocar os pingos nos is. Veja aqui mais sobre esse exame de consciência.

Hoje com essa cultura utilitarista que tudo para ter valor tem que ter uma utilidade, não faltam arrogantes de plantão, a desprezar tudo por nada, sem perceber que são eles os cegos e que existe muita coisa que eles não estão percebendo. E como todos agora tem a cara sempre no celular só aprofundam o próprio egoísmo enxergando tudo com sentimentos muito ruins. ( No mínimo com a impaciência de quem se vê interrompido na sua autocontemplação.).

Ontem, uma jovem fisioterapeuta na fila do banco, querendo fazer um depósito, me fez pensar nesta postagem sobre as boas maneiras e os sentimentos. Na fila única, numa agência com 15 máquinas de auto atendimento, ela perguntou em voz alta dirigindo-se a todos que usavam os caixas eletrônicos se as máquinas que eles estavam usando, faziam depósito. Era fim de mês e tinha muita gente ocupada pagando muitas contas. É o cúmulo da falta de educação querer que o mundo pare para nos atender.

E como ninguém lhe respondeu essa moça teve um ataque de soberba e começou a discursar sobre como ela, em sua experiência muito superior, estava acostumada com isso de as pessoas não escutarem. Notem que ela dizia, "não escutarem" genérico, porque se pensasse que "não a escutavam" talvez começasse a notar que o problema fosse com ela e não com os "outros". Mas não, o problema é dos outros: eles não escutam. Ficou bastante claro como eram inferiores essas pessoas que não param para fazer o que ela quer! Ah! seus surdos... Quem é surdo realmente?

Vejam bem o que ela estava pedindo: que 15 pessoas que estavam pagando as suas contas parassem o que estavam fazendo,  e todos que aguardavam na longa fila na qual ela era a última, também se dispusessem a aguardar mais, só para que ela soubesse em que caixa iria fazer seu depósito. Um detalhe interessante: esse banco trabalha com fila única. Ou seja, dali onde ela estava saberia qual o caixa disponível para depósito.

E ela continuou discursando sobre como estava acostumada sobre essa incapacidade das pessoas de escutarem porque trabalhava como fisioterapeuta e tinha muitos os pacientes idosos que não a ouviam. Coitados desses clientes! (Eu amo idosos e tenho uma particular preocupação com eles e esse entendimento dela me deixou horrorizada por tudo que isso poderia implicar no tratamento dos seus enfermos.)

Em minha inocência e querendo ajudá-la informei quais máquinas costumavam fazer depósito e que se ninguém tinha respondido era porque estavam todos ocupados. E que talvez ela devesse chamar a ajuda do banco. Estava claro que toda aquela ansiedade era porque ela não sabia fazer o depósito na máquina, mas não podia dizer isso simplesmente. Aliás esta falta de simplicidade é uma das características mais marcantes da soberba, sempre entretecida em razões sem razão.

Ela imediatamente respondeu que não, que sabia como era o atendimento do banco e que até ele vir e fazia caretas e gesticulava indicando desprezo pelo atendente do banco. Em seguida me respondeu bruscamente como que para me corrigir ou interromper minha solicitude que estragava sua descrição sobre a surdez alheia pela qual ela se exaltava.

Fui embora muito triste porque ela era muito jovem e se pode ver que a educação humana no Brasil não melhorou, até piorou. Temos novas profissões, mas aquela educação universal, que vinha dos princípios cristãos aprendidos em família, não vigoram mais e isso torna as pessoas mais do que mal educadas, as tornam pessoas muito feias.

Outro dia fui à Caixa Econômica no primeiro dia depois da greve. Não é preciso dizer que estava o caos. Isto é uma especialidade da Caixa Econômica, todos sabem. Aí fiquei amiga de outra moça que também era muito escandalosa e agitada. A atendente não sabia nada sobre o que essa minha nova amiga precisava (outra grande especialidade da Caixa) e isso a deixava transtornada, falando alto, alardeando um desespero proporcional só à sua falta de preparo pessoal. A esta eu consegui ajudar: na burocracia e ao acalmá-la.

Penso que uma boa educação nos deve dar elementos para lidarmos com o que não conhecemos com algum sucesso e a agir sempre educadamente. O curioso sobre esta, é que não lhe faltou sagacidade para tentar armar um "H" e me tomar um dinheiro para completar o seu pagamento da conta. A minha solicitude e sua alardeada "coitadice" eram seus motivos. É preciso promover a inclusão moral e não apenas material ou nunca venceremos esse vale tudo de uma sociedade com longa tradição em exclusão extrema que tem justificado cotidianas corrupções de todos os níveis.

Ambas colegas de banco, digamos assim, demonstraram os muitos malefícios da deficiencia da educação no Brasil e seus efeitos na vida cotidiana. Não podemos esperar que a educação no Brasil melhore para aí sermos mais hábeis. É preciso se educar e vigiar a quantas andam os nossos sentimentos e como nós realmente tratamos os demais. 

Uma curiosidade: o rapazinho que ajuda nesse banco é um amor de menino. Há de ser gerente ou mais algum dia. Tem uma simpatia impar e muita paciência com os idosos. É moreno de olhos azuis bem apessoado e sabe muito das operações do banco.

Em minha imaginação pensei que se a fisioterapeuta tivesse pedido auxílio do atendente do banco talvez tivesse encontrado o seu príncipe encantado. Coisas da imaginação. Mas talvez não. Ela era lourinha, jovem com o rosto bonitinho, mas muito gorda e mal vestida. Sim, porque os defeitos andam juntos, assim como as virtudes.

É preciso olhar a todos com caridade e rememorando estas experiências sinto muito pesar por essas moças e até por explicitar aqui defeitos tão feios. Não imaginam o afã que me pulava na alma enquanto falava com elas para levá-las para aulas de humanismo cristão e vê-las melhor e mais felizes.

A arrogância nos torna cegos e nos faz perder oportunidades que só Deus sabe no que poderiam dar. Seja amável sempre porque isso mantém o coração limpo e melhora as nossas relações interpessoais e nos encaminha para o céu. 

Boas Maneiras: Inauguração Livraria ou Boas Maneiras no Coração

Acabamos de chegar da inauguração da nova Livraria Lumen Christi, a livraria do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, na Rua Dom Gerardo no centro. Na verdade é a inauguração do seu novo espaço porque a livraria Lumen Christi já existia noutro ponto dentro do Mosteiro de São Bento.

Tudo muito lindo e perfeito na inauguração da nova loja: espaço amplo, bem iluminado, excelentes livros, muitas autoridades e algumas celebridades, discursos e coquetel perfeito. Velhos amigos e muitos, muitos, amigos novos.

E aqui chegamos ao ponto de o que que esta inauguração tem a ver com este blog. Bom, claro que os livros sobre as virtudes e a ascética cristã são uma razão. É preciso comprar esses livros. Alguns delirantes, como o Compendio de Teologia de Tanquerey, e, claro, tudo sobre a Ordem Beneditina, quase tudo de Bento XVI e a coleção completa da Quadrante. E isto foi um pouco do que deu para perceber das prateleiras tal a multidão que lotava a livraria.

Mas quando vamos ao Mosteiro de São Bento sempre voltamos como que enebriados por essa doce recepção beneditina. Se há uma coisa que é sintomática do cristianismo é esse acolhimento católico, universal, que se sente nos ambientes verdadeiramente elevados pelo amor de Cristo.

Mas os beneditinos se excedem nessa doçura em receber. É impressionante. É muito, muito sutil. É uma acolhida repleta de uma doçura onipresente, singela e, confessamos, invejável. 

Já estivemos em muitos outros eventos do Mosteiro de São Bento e é sempre essa mesma sensação de se ser acolhido como se fôssemos membros daquela família, longamente conhecidos, queridos, anelados, mesmo que recém-chegados. 

E ao mesmo tempo tudo é tão natural e simples! Ou será que é porque tudo é tão natural e simples, regado por essa discretíssima humildade, longamente elaborada pela oração, que somos tão bem recebidos, acolhidos?

Por oposição nos lembramos agora dessas festas infantis, cheias de enfeites, brindes e decorações luxuosas, mas onde, não raro, os pais se comportam como quem levou o filho a um evento público, pelo qual "pagou" por levar o presente e acaba agindo com indiferença e desinteresse, não raro simplesmente descartando o filho na festa para que se "entupa" de prazeres externos... Os adultos não se envolvem nem ensinam os filhos a se envolverem com a alegria do aniversariante. Ou esses casamentos e reuniões onde a competição, a vontade de parecer "magra", rico, forte, poderoso, etc. é o único "ânimo" a mover a festa. Que diferença!

Como pessoa de comunicação nunca me canso de perguntar toda vez que vou lá: como eles conseguem ser tão doces ao receber? Se uma pessoa quiser ser um bom anfitrião deve procurar imitá-los, conhecer a Regra de São Bento. O acolhimento deles é sincero, a atenção que nos dão é verdadeira. Muito rapidamente, mesmo numa primeira conversa com eles, você se sentirá há muito "um velho conhecido". Suas conversas não tem aquela predisposição feita de receios, malícias, segundas intenções, nem a desconfiança e o jeito "armado" ou precavido das conversas do mundo laico. Que bom é estar no Mosteiro de São Bento!

Para se ter uma ideia vejam o que fez Dom.... A nossa amiga, que nos convidou para a inauguração da livraria, chegou muito atrasada nesse dia. Na verdade chegou três horas depois do início da festa.

Durante todo o tempo em que conversávamos se ela ainda viria ou não, Dom... nos dizia que ainda estava em tempo dela chegar. E quando passadas três horas do início da festa, ela realmente parecia que não viria mais, Dom lembrou-se prontamente de mil impedimentos plausíveis que, se a desculpavam de seu atraso, à nós, ao mesmo tempo, animava a acreditar no melhor.

A coitada da nossa amiga enquanto isso corria e fazia de tudo para livrar-se do dentista e do trânsito. Que mal teríamos feito se pensássemos mal dela e do seu atraso, tanto esforço ela fazia para chegar!

Mas ninguém pode pensar mal de alguém enquanto conversa com um monge beneditino! É impossível! Eles agem, na conversa, como anjos da guarda a nos defender dos maus pensamentos, dos cansaços, das preocupações, dos pesares inúteis e vaidosos e que tantas vezes nos levam à falta de generosidade quando não à crítica gratuita ou à maledicência.

Ah! Como seria bom ser assim na nossa vida em sociedade! Esta é a verdadeira educação! E esta educação não pode ser reduzida à "uma questão de regras de etiqueta".

A verdadeira educação é feita de valor real, feita de oração diária, de opção por uma fé que molda as relações sociais do homem pelo amor. E não por comportamentos baseados ora na conveniência comercial, ora nos humores.

Quando nossa amiga finalmente chegou Dom... prontamente acolheu-a com alegria e disse: " - Já tenho aqui novos amigos" se referindo a nós. Pensem bem, se nós nos estivéssemos sentindo constrangidos e negligenciados porque a pessoa que nos convidou para a inauguração ainda não havia chegado, imediatamente não nos sentimos mais assim depois desta frase. E se a nossa amiga estivesse preocupada com isso, ao ouvir esta frase, esta doce e discreta acolhida se sentiria aliviada. Sem esta frase, ou sem a interferência santa de Dom, a conversa, certamente, versaria sobre o atraso e não sobre os "novos amigos".Com esta frase de Dom  " - Já tenho aqui novos amigos" nossa amiga foi carinhosamente acolhida e nós, ao mesmo tempo elevados a amigos e chamados a alegria da sua chegada. E isto tudo só com uma frase só! Fala sério, é brilhante!

Ao invés de uma conversa sobre desculpas e preocupações todos fomos levados a saudar sua chegada ao mesmo tempo que nos sentíamos já incluídos. Se seguiram risos e alegria e ficamos todos mais contentes.

E isto aconteceu com uma frase só. Beira a genialidade. Ou será a santidade? E é tudo feito de tal maneira que um mais desavisado não nota. E não foi só esta frase. A conversa deles é sempre assim, toda entretecida da luz de Cristo. Como deveria ser a nossa. Donde se conclui que, "no frigir dos ovos", na vida cotidiana, importa mais a santidade.

Bem, isto é um pouco do que vimos e conseguimos colocar em palavras. Mas da capacidade de acolhimento beneditino há ainda muito mais para se aprender: há um ser em cada frase que é um consolo, uma alegria, um ânimo. E isto é preciso colocar na vida em sociedade. E é por isso que São Josemaría Escrivá, o santo da vida cotidiana, nos anima sempre a buscar "um algo santo na vida cotidiana que nos cabe descobrir". E isso é ser católico, universal. Dizem que Bento XVI é assim em sumo grau. Como eu gostaria de conhecê-lo!

Viva o Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro!